Conan

Era um mundo devastado aquele em que Conan vivia com o seu avô e sua amiga Lana. No ano 2028, uma década depois da III Guerra Mundial, os sobreviventes da grande devastação tentavam levar as suas vidas em harmonia com a natureza. Mas havia quem quisesse reconstruir uma cidade com todos os pecados que levaram a humanidade à destruição. É contra este grupo que Conan vai lutar até à sua destruição. Era esta a história de Conan, o rapaz de futuro, que passava na RTP nos distantes sábados de 1983. Quem como eu gostava de animação japonesa não perdia um único episódio nem as proezas sobre-humanas de Conan. Era um bom motivo para me levantar de manhã. A série foi agora lançada em DVD. É da autoria de Hayo Miyazaki, o mesmo realizador de A Princesa Mononoke ou mais recentemente a Viagem de Chihiro. É um realizador em que o tema do confronto entre a natureza e a técnica está sempre presente na sua obra. Em 78, quando fez Conan, a perspectiva da III Guerra Mundial não era uma ideia tão absurda quanto isso. Parecia ser mesmo uma forte possibilidade. Hoje perdeu sentido e já ninguém se lembra da guerra fria. Dos mísseis americanos com ogivas nucleares estacionados na Europa, do Pacto de Varsóvia, dos jogos de espiões, do Muro, da cortina de ferro, do Brejenev, da Guerra das Estrelas do Reagan, dos submarinos soviéticos a passar ao largo de Portugal. Tudo isto parece distante 20 anos depois. Tudo isto parece uma série de ficção à Miyazaki. Mas não foi. Mas hoje quando vemos Miyazaki vemos que os temas são os mesmos. Que o homem continua a insistir na ecologia. Não mudou nada em 20 anos.

Quero ser o teu Volkswagen

Procuras a mudança

Passas a terceira

Travas suavemente

E viras de repente

Os cavalos do motor

Estão sempre ao teu dispor

É um silêncio, coisas a potência

Saindo de viés desvias-te da trajectória

Quero ser o teu Volkswagen…

Desperta os instintos

Reage aos movimentos

E responde com sucesso

Às ordens do teu braço

Escolhes a velocidade

E o grau de suavidade

Sem excesso de rotação

Com brandura na aceleração

Quero ser o teu Volkswagen…

Direcção assistida

Conforto na auto-estrada

Segurança garantida

Quilometragem ilimitada

Quero ser o teu Volkswagen…

Balla

O populismo

Ontem, Pacheco Pereira descrevia bem no Público, o que é o populismo. É uma acção política baseada no espectáculo, na habilidade de bem comunicar, de bem publicitar e principalmente baseada numa forte personalização da política com constante visibilidade na televisão e na restante comunicação social. O populista gosta de espectáculo, de dar nas vistas, de obras emblemáticas, embora muita da sua política seja pouco consistente e habitualmente cara. No fundo, há uma constante preocupação em ter projecção e visibilidade. Santana Lopes sempre teve essa preocupação consigo. E as suas vitórias na Figueira e em Lisboa devem-se um pouco a isso. Ou seja, a aura populista funcionou a seu favor. O que as pessoas queriam era um presidente de câmara que desse visibilidade à sua terra. E há logo uma sensação que se o presidente for conhecido isso acaba por acontecer. Vejam o caso de Valetim Loureiro em Gondomar ou outros casos pelo país. Mas uma política populista tem os seus perigos. Em vez de fazermos coisas que são realmente importantes gastamos recursos em flores. Uma rede de saneamento não se vê, mas uma fonte luminosa toda cheia de cores à noite enche mais olho do que os canos debaixo do chão. Mas é óbvio que passamos melhor sem a fonte do que sem os canos. Em Aveiro, vemos obras que enchem o olho e que em alguns casos eram mesmo necessárias, mas continuamos a circular por uma cidade com estradas degradadas e cheias de buracos e desacertos no alcatrão. Isto não quer dizer que o presidente da câmara seja populista, mas tem tido obviamente uma componente populista em algumas das obras que vemos. Mas dizem-me que é assim que se ganham eleições. O problema é encontrar um equilíbrio, entre aquilo que é necessário e aquilo que é acessório. Santana Lopes no governo vai ter esse problema e não sabemos bem se vai conseguir estabelecer um equilíbrio. Ontem disse que o rigor nas contas públicas é para manter, mas não podia dizer outra coisa. A ver vamos se consegue resistir ao populismo.

O homem pelo qual não davam nada

O homem que tinha apanhado uma derrota tremenda há 3 semanas, o homem que todos diziam que nunca chegava a primeiro-ministro, o homem de quem diziam que não fazia mais do que uma legislatura, vai agora ser presidente da Comissão Européia. Deve estar a rir-se do que tudo o que disseram sobre ele no passado. Vai ocupar o maior cargo internacional que alguma vez um português ocupou. Sai pela porta grande para aquilo que sempre gostou: as relações internacionais. Deixa um país cheio de problemas como sempre e com mais um para resolver: o da sua sucessão. Mas percebo a sua opção. É uma oportunidade única na vida que lhe traz um enorme prestígio. Mas deixa na calha da sua sucessão um homem que parece não agradar ninguém. Um homem que não tem a aura de estadista, um homem sobre o qual não se conhece uma visão para o país, sobre o qual pesa uma idéia terrível de populismo. Talvez Santana Lopes não seja assim tão mau como o pintam, mas a sua ascensão a primeiro-ministro provoca uma tremenda desconfiança, uma terrível sensação de insegurança. E depois não foi nele que votaram nas eleições de 2002. Daí que o melhor seja mesmo haver eleições em Outubro. Mas compreendo porque o PS e a oposição as defendem. Cheira-lhes a poder e a vitória, depois do resultado das européias. É claro que o PSD não as quer, pois ainda mal aqueceu o lugar no governo e agora que a retoma estava à porta deixa os frutos para o PS. É triste, não é? Mas ainda não sabemos o que Jorge Sampaio vai fazer. Talvez o presidente não dissolva o parlamento. É esse o meu pressentimento. Mas o que pensará Santana Lopes neste momento? Não achará estranho que tanta gente desconfie dele? Que ao longo da vida muitos o tenham achado pouco capaz para certas funções? Estará arrependido do cruzeiro de Verão da Kapital com o lenço vermelho na cabeça e de outras histórias parecidas? Penso que muitas vezes deve sentir-se magoado, afinal o povo sempre gostou dele e até o partido e ganhou mesmo eleições difíceis como as de Lisboa. Mas não se livra da imagem de noctívago, de mulherengo, de boa vida. E é isso que provoca desconfiança. É que para primeiro-ministro gostamos de estadistas, de tipos que não vão à discoteca, que não andam com mulheres bonitas, que não aparecem nas revistas do coração. É isso que dá seriedade a um estadista. E o ar de Rodolfo Valentino dos subúrbios, como dizia Saldanha Sanches há tempos, não ajuda muito a isso. Mas convém dizer que este Rodolfo Valentino tem 48 anos e que tudo indica que tem uma longa vida política à sua frente. Portanto, um dia poderá chegar longe mesmo que não seja a primeiro-ministro. E um dia quando lá chegar talvez olhe para trás e se ria de todos aquele que não davam nada por ele. Como Durão Barroso agora.