Um profeta resistente

Não podia deixar passar em claro o aniversário do Estarreja Efervescente. Ele é o percursor de outros blogues locais e um dos mais resistentes. Ao fim de um ano, muitos dos blogues que surgiram nessa vaga estão parados havendo apenas actividade assinalável neste e no que agora faz 1 ano. Daí os meus parabéns ao autor que soube resistir. E penso que a resistência foi compensada por um certo reconhecimento à esquerda e pelas citações noutros blogues e mesmo em jornais. O Estarreja Efervescente transformou-se assim numa tribuna que o autor tem usado bem para promover os seus pontos de vista e para fazer oposição à câmara e com vantagem de ter muito mais audiência do que numa assembleia municipal. E está obviamente no seu direito e acho que faz muito bem em aproveitar o espaço de antena que tem. Mas o Estarreja Efervescente não foi apenas política neste último ano. Também teve outras coisas que lhe deram uma abrangência maior. E foi essa imagem de “blogue de autor” e não de blogue ao serviço de uma força externa que lhe deram credibilidade.

Os profetas da desgraça

A profecia era, em tempos antigos, uma arte bem apreciada. Os profetas viam acontecimentos futuros em sonhos, ou através de visões. Quase sempre falhavam nas suas previsões, mas como as visões tinham sempre múltiplos sentidos, ninguém notava os erros de previsão. Por cá, também temos alguns, mas em vez de usarem pincéis e pergaminhos para escreverem usam a net. Um deles tem mesmo um blogue onde estranhamente profetiza contra o futuro do Parque Eco Empresarial de Estarreja. Digo estranhamente por que ele próprio diz que não conhece os contornos do negócio. Sendo assim, como é que pode fazer profecias tão sombrias sobre o futuro do parque, quando mal conhece o processo? Mas vamos aos factos. Quando esta câmara tomou posse já a câmara anterior tinha comprado alguns terrenos para tentar fazer o parque industrial. Tinha grandes planos para o dito, mas a verdade é que durante 8 anos não passou da fase da tentação. Sei que não é fácil gerir um processo tão complicado com uma enorme quantidade de pequenas parcelas a comprar e a registar, mas o processo de compra e registo de terrenos terá ficado certamente abaixo das expectativas. É o azar de tentar comprar coisas muito divididas e na mão de pequenos proprietários. Portanto, quando este executivo tomou posse herdou mais uma obra por terminar e com muito trabalho ainda por fazer. Mas além do problema dos terrenos havia também um problema no modelo de gestão. Os antigos profetas queriam gerir tudo à velha maneira, ou seja, a câmara fazia tudo desde a venda de terrenos até à promoção e gestão do parque. O actual executivo percebeu logo que tal modelo de gestão não servia para gerir um parque moderno e capaz de atrair bons investimentos. E tratou logo de fazer contactos com várias entidades para arranjar um parceiro estratégico, nomeadamente com a Agência Portuguesa para o Investimento (API) e a Associação Empresarial Portuguesa (AEP). Acabou por decidir fazer uma parceria com a APIParques da API, que ficou com 51% do capital da sociedade ParqueEsta, entrando também na sociedade a AIDA, a SEMA e talvez no futuro a Universidade de Aveiro, mas com quotas menores. Ora os 51% da APIParques podiam assustar a câmara caso não existisse um acordo Parassocial que impede qualquer desvio em relação às questões mais importantes, ou seja, ordenamento, ambiente, definição da política de preços dos terrenos, nomeação do presidente do Conselho de Administração e posse dos terrenos por parte da CME. É este acordo que protege a câmara de qualquer abuso por parte da APIParques no seio da ParqueEsta. E logo aqui há uma diferença grande entre esta câmara e a anterior, que é o ter percebido que a autarquia não tinha estrutura nem pessoal para promover e gerir um parque industrial de qualidade. Portanto, quando ouço os antigos profetas falarem de um parque ultramoderno no passado, um parque com um modelo de gestão de há 10 e 20 anos, só posso perceber tal afirmação num contexto de êxtase ou de estado alterado da consciência. Mas vamos a mais factos. Quem é que vai mandar no Parque? É óbvio que é a sociedade gestora, na qual a APIParques tem a maioria do capital. Mas convém dizer que a sociedade gestora vai fazer isso mesmo gerir cabendo sempre à autarquia a última palavra como proprietária dos terrenos a vender. Aliás, o regulamento para a venda dos terrenos será aprovado pela autarquia em função de critérios já definidos no acordo Parassocial. Portanto, a ParqueEsta será apenas o gestor do condomínio sendo a CME a dona dos apartamentos. Isto mostra que houve obviamente a preocupação por parte desta câmara em defender os seus interesses no futuro parque ao contrário do que dizem os profetas da desgraça. Por outro lado, a presença da APIParques na sociedade gestora pode trazer no futuro para a gestão da ParqueEsta os terrenos da Quimiparque, proporcionado assim uma gestão integrada para toda a área. Ora perante este cenário parece-me óbvia a razão pela qual a actual câmara abandonou o testamento deixado pelos antigos profetas. É que era um projecto ultrapassado que a câmara nunca conseguiria gerir de forma eficiente. Perceber isto é fundamental nesta discussão. Outro ponto importante foi o faseamento da empreitada. O anterior executivo queria fazer tudo de uma vez só. Não digo que fosse impossível, mas o esforço financeiro que a câmara ia fazer em tal empreitada seria tremendo comprometendo certamente outros projectos ou obras. Este executivo teve o bom senso de moderar isso e de fazer de forma faseada as coisas. E este é outro corte com o passado. Em resumo, esta câmara percebeu 3 coisas essenciais. Que o modelo de gestão que o anterior executivo queria não era compatível com a gestão de um parque moderno e de qualidade, que a pareceria com a APIParques pode trazer no futuro para a gestão do parque a zona da Quimiparque e que toda a obra devia ser feita por partes de forma a moderar o esforço financeiro. É nestes três pontos que a acção do actual executivo marca a diferença em relação ao passado. E penso que é este o caminho que deve ser seguido.

A casa queimada

Estava um dia de Sol. Um calor de fim de Verão como agora. Um calor de Setembro. A tarde começava serena. Estamos em 1976 e são quase três da tarde. Carlos Rebelo conduz um camião cisterna pela estrada 109, na companhia do filho em direcção á Figueira da Foz. Passam por Salreu sem grandes problemas, mas perto do fim das casas, quando a estrada começa a descer travam um pouco por causa de alguns carros na faixa contrária. De repente perdem o controle do camião. Desgovernados batem num muro e num poste de electricidade que derrubam e continuam sem rumo até baterem num carro estacionado junto a uma casa. A casa tem uma pequena rampa que o camião sobe arrastando o carro à frente. Em poucos segundos, o camião tomba na estrada. Dentro da cisterna estão 13 mil litros de gasóleo e 24 mil de gasolina, que se espalham pelo pavimento. De repente, talvez devido a uma faísca do poste eléctrico, o combustível incendeia-se e as chamas deslizam pela estrada e envolvem o camião. Carlos Rebelo consegue fugir mais o filho, embora as chamas lhes causem algumas queimaduras. Dentro da casa está o dono, a mãe do dono, a esposa, dois filhos pequenos e um médico que consultava o dono da casa por este se encontrar doente. Não podem fazer nada senão fugir. O calor começa a estalar os vidros das janelas a derreter os estores. O dono embrulha-se num cobertor que tinha na cama e foge mais a mulher e os filhos. Só a mãe do dono fica para trás, agarrada à casa e a tudo o que tinha lá dentro. A gasolina e o gasóleo correm pelas valetas da estrada. Invadem o rés-do-chão da casa e queimam tudo à sua passagem. O carro do médico é também consumido pelo fogo. Tudo arde no calor da tarde. Um cão numa propriedade ao lado ladra em aflição. Preso à casota tem o destino selado. Não escapará às chamas. Os bombeiros sem grandes meios tentam afastar o fogo das restantes casas. Só ao meio da tarde terão os produtos apropriados para despejar sobre a cisterna do camião. Entretanto, um dos tanques do camião explode provocando vários ferimentos entre os bombeiros. Um deles, em estado mais grave, é evacuado de helicóptero para o Hospital de Aveiro. A tarde termina pesada com uma imensa coluna de fumo negro espalhada pelo céu. O fumo vê-se a dezenas de quilómetros. O calor do fogo foi tanto que derreteu os paralelos da estrada. Da casa nada resta a não ser as paredes. Ao longe o dono olha para ela. Ficou sem nada em poucas horas. Tem 34 anos, mas não sabe o que fazer. Espera obviamente que os responsáveis por semelhante tragédia assumam as consequências do sinistro. O camião tinha um seguro no valor de mil contos, que não chega para cobrir todos os prejuízos. O dono do camião esquiva-se no seguro e deixa o caso ir para Tribunal. Sete anos depois é condenado em tribunal, mas recorre da sentença e não paga nada. Entretanto, o dono da casa à custa de um empréstimo bancário compra uma casa nova e continua à espera que se faça justiça. Morre em 1987 sem receber nada. Dois anos depois, o dono do camião chega a um acordo extrajudicial com os herdeiros do dono da casa. Dá-lhes mil contos, ou seja, mais ou menos o dinheiro que custaria a reconstrução da casa em 1976. Compra-lhes assim o silêncio e alivia a consciência. E a justiça com a sua balança na mão assiste a tudo impávida e serena. O dono do camião ainda tem a sua empresa à beira do Antuã. Vive bem. Talvez se lembre de vez em quando do sinistro. Da falta de responsabilidade que teve. Da justiça que o ajudou e favoreceu com a sua lentidão e ineficácia. Não creio que se lembre do dono da casa e da família que lá morava. Coisa do passado, que convém enterrar. Talvez queira esquecer tudo aquilo. Aquela tarde quente de Setembro. O camião tombado. As chamas. Os rolos de fumo negro. A casa queimada.

As aves

Há coisas que me soam mal quando falamos de ambiente e do IC 1. Devo confessar que sou uma criatura ligada à terra, ao verde da erva, aos montes, aos campos. Devo confessar que não gosto de estradas a estragar-me a paisagem e que os super-heróis ainda são precisos para salvar o mundo. Mas tenho carro e preciso de estradas para chegar onde quero. Sei que um dos grandes problemas do IC 1 a poente é sua passagem pela ZPE da Ria de Aveiro. De forma simples, é uma zona de protecção especial que protege a nossa ria de qualquer tipo de agressão, seja ela aérea, marítima ou terrestre. Neste contexto, as espécies que lá vivem são protegidas e devem ser conservadas a todo o custo. Sabemos que a ria é um sítio aprazível e ponto turístico obrigatório para muitas aves. Calcula-se que 20 mil passem por lá férias todos os anos com a família. Digamos que é uma espécie de Algarve para as criaturas de penas. Algumas têm lá casa permanente, outras passam só férias e vão-se embora. No entanto, a espécie mais importante da ZPE é obviamente esse hominídeo chamado Homem. Um animal de porte e marcha erecta que gosta de carros e de construir estradas. É que um bocadinho de Fermelã faz parte da ZPE, o que significa que alguns dos seus habitantes são espécies de conservação prioritária. Portanto, também têm uma palavra a dizer a respeito deste problema, assim como as aves. Sou, por isso, a favor da consulta popular. Que se faça um referendo entre as aves a ver o que elas têm para dizer. Sei que algumas dizem que não querem cá mais barulho. Outras que não se importam, pois conhecem várias cegonhas que vivem perto da estrada e que não se chateiam muito com o barulho dos carros. Há também o comboio, mas em relação a esse já estão habituadas. E depois dizem que a zona de lazer é muito extensa e que cada uma pode passar férias onde bem quiser. É certo que muitas delas gostam mais do barulho das rãs do que dos carros ou do comboio, mas como podem facilmente mudar de casa e não falta por aí espaço resolvem facilmente o problema. Quanto aos outros habitantes da ZPE também gostam das rãs e da companhia das aves. Vivem com elas há muito tempo e habituaram-se à sua presença. Gostam mesmo de as ver por cá a passar férias. Mas também gostam de estradas e de andar de carro. Já se habituaram a ver o comboio a passar pelo meio do campo e acham que uma estrada à beirinha da linha não vai fazer mal nenhum. Mas há depois os ecologistas que não são aves nem espécies de conservação prioritária, mas que gostam sempre de preservar. Sei que são criaturas bem intencionadas e que são importantes para o equilíbrio do planeta e do meio ambiente. Devo confessar que também gosto deles. Como eu também gostam das aves, da terra, da erva, dos montes e das espécies protegidas. Gosto do seu radicalismo, dos slogans, da sua forma verde de ver o mundo. Sei que por vontade deles não havia carros, nem estradas, nem fábricas, nem efeito de estufa, nem aquecimento global, nem buraco de ozono e que o mundo seria certamente muito melhor do que é. Sei que tudo está ligado a tudo numa complexa teia de relações como defendia o velho Haeckel. Que gozamos as árvores dos outros. Que não podemos viver isoladamente da natureza. Que uma pequena mudança num ecossistema pode ter implicações profundas no global. Que os super-heróis ainda são precisos para salvar o mundo. Mas o que fazer então? Decepcionar o povo, os autarcas, os políticos, que andaram a contar com uma estrada a poente e sai-lhes outra coisa a nascente? Obrigá-los a comer um sapo, quando o sapo também é uma espécie de preservação prioritária e venenosa segundo sei? Não é fácil convencer as várias espécies em jogo disto. Dos interesses da natureza, dos desequilíbrios ambientais, do problema do buraco de ozono. É que para muitos hominídeos a estrada tem mais sentido a poente do que a nascente. E saber se o sentido deles está ou não certo é uma questão complicada.