Informadores

Uma das coisas curiosas da nossa revolução de Abril e dos tempos posteriores foi a forma como se tratou dos arquivos da PIDE/DGS. Gente não autorizada acedeu ao arquivo e subtraiu muitas das fichas de militantes e dirigentes do PCP, apanhou a lista dos funcionários da PIDE e dos informadores e guardou-as bem guardadas. A lista dos funcionários foi divulgada pelo MAI em 75 e no livro do Nuno Vasco “Vigiados e Perseguidos” (Bertrand, 1977), mas a lista dos informadores nunca foi divulgada. Nuno Vasco calcula que a PIDE tivesse à volta de 15 mil informadores espalhados por todo o país. Eram pessoas das mais variadas classes que actuavam pelas mais diversas razões. Alguns deviam estar colocados nos escalões de poder e devem ter continuado por lá mesmo depois do 25 de Abril. Os preciosos serviços que prestavam no tempo do Estado Novo devem ter continuado no tempo da democracia. Também os tínhamos em Estarreja. Quem eram? Onde estão agora? Alguma vez foram penalizados socialmente? Alguma vez saberemos os seus nomes?

A queda

Ainda não vi o filme de Hitler. Estranhamente não está em Aveiro? Mas conheço o livro de Traudl Junge “Até ao Fim” (Dinalivro, 2003), no qual uma das secretárias de Hitler relata os dias no bunker. E vale a pena ler e ver o filme para ver que Hitler apesar da demência e da cegueira ideológica e criminosa é um homem com emoções humanas, capaz de expressar carinho e afecto. E isto torna-o mais humano e mais próximo de nós. Somos até capazes de compreender que naquele homem desequilibrado havia razões para pensar assim. É que ele acreditava mesmo naquilo. Na supremacia da raça, na eliminação dos fracos, a fé pela pátria e no papel relevante da Alemanha nos destinos do mundo, na dominação da Europa e da União Soviética. O império do Reich, o maior império da história da Alemanha. Um império capaz de rivalizar com os grandes impérios da Antiguidade. O império alemão. Hitler sonhava com tudo isto. Achava que a raça ariana estava destinada a governar. A mandar, a ser a melhor.

Mas Hitler era um líder completamente desequilibrado e incapaz de avaliar as verdadeiras consequências dos seus actos. Era mesmo um mau estratega, embora tivesse excelentes generais no seu exército. Mas tinha mania que sabia mais do que eles. Arrastou o país para uma aventura sem fim à vista, sem metas definidas e realistas, para uma guerra cujo objectivo era dominação completa, de uma boa parte do mundo. Conquistou grande parte da Europa e começou depois a pensar na conquista do espaço soviético de forma a empurrar os eslavos para além dos Urais e criar uma linha de defesa natural, além de aceder às reservas de petróleo do Cáucaso. Depois esperava a rendição da Inglaterra e a ocupar a Índia juntando-se assim aos japoneses. E um dia com os japoneses podia pensar com calma na América.

Mas aventura alemã na Rússia foi um desastre e Hitler começou aí a perder a guerra. Se tivesse vencido, não haveria paz enquanto o III Reich durasse. Mas naquele dia de Abril tudo acabou. Com um tiro na cabeça selou o seu destino. A Alemanha já tinha perdido a guerra desde a derrota na frente leste e do desembarque na Normandia. Mas naquele dia de Abril, tudo acabou definitivamente. Vale a pena ver e recordar.

Regionalizar?

Será que a regionalização vai voltar? É o que parece agora que as comunidades urbanas e as novas áreas metropolitanas caíram num impasse. A lei-quadro que devia definir o seu funcionamento e transferir competências não chegou a ser publicada pelos governos da coligação (uma coisa que me custa a digerir). Se havia tanta empenho na reforma, porque razão não se regulamentou a lei?

Mas agora o PS não está interessado em regulamentar a lei nem em dar continuidade à ideia. Portanto, como muitas outras reformas neste país é mais uma que fica pelo caminho. Somos experts nisto. Anunciar grandes reformas e depois deixar tudo na mesma ou sem conteúdo prático.

Bem, mas o PS está interessado é na regionalização. E vai lutar para que o assunto volte à agenda política. Talvez tenhamos por aí mais um referendo, quem sabe? Mas é isto que nos espera nos próximos tempos. Regionalizar. Há quem diga que agora que a limitação de mandatos se vai aplicar aos presidentes de câmara, estes vão precisar de novas ocupações quando deixaram as autarquias. Ora nada melhor que uma região para dar a ex-autarcas desempregados um novo cargo. Quem diz isto é mauzinho, mas sabemos que em muitos casos isso acabará por acontecer. Mas a regionalização é um assunto sério. E devia ser discutido a sério. Acho a ideia generosa, mas num país como o nosso cheio de maus hábitos e vícios, não sei se resultaria? Por isso votei contra no referendo da regionalização. E se surgir um novo referendo talvez faça o mesmo. A não ser que alguém me convença do contrário. É que até gosto da ideia.