Demagogias

Há sempre tendência para a demagogia quando andamos em campanha eleitoral. Devem ser denunciadas, pois turvam o discurso político. Todos os partidos as cometem, mas deviam de evitá-las.

O PS em Estarreja não é um caso único. Mas o facto de estar na oposição aguça a tendência nesse sentido. Recebi hoje um infomail destes meus camaradas com várias.

O panfleto está bem feito, mas esperava um discurso mais equilibrado, menos agressivo e menos demagógico. Percebo que queira assim marcar um certo contraste em relação à coligação, mas podia fazer isso de forma mais inteligente e menos demagógica. Dando enfânse às propostas do programa como um projecto alternativo de poder e não com comentários comicieiros.

Percebo, no entanto, agora a razão do lema do PS. É que segundo os meus camaradas socialistas não se fez nada de novo em Estarreja, nos últimos 4 anos. É um discurso típico de campanha, mas que os partidos deviam de evitar pela inverosimilhança do mesmo.

É que se isto fosse verdade, então seria impossível explicar como é que um executivo que em despesas de capital executadas passou de uma média de 6 milhões de euros/ano (no tempo do PS), para 10 milhões de euros/ano (no tempo actual) não fez nada? É que se não fez nada com este nível de investimento, então o PS no passado como níveis inferiores deve ter feito menos do que nada.

Portanto, acho que aquilo que o PS podia obviamente discutir nos tempos actuais era a autoria das obras. E aí assim podia munir-se de argumentos, embora o problema das obras mais emblemáticas subsista, pois a verdade é que as obras na biblioteca e no cinema só começaram em 2001, ou seja, levaram dois mandatos do PS para começarem a ver a luz do dia.

Também é demagógico o argumento que as despesas correntes da câmara não pararam de aumentar, pois se olharmos com atenção vemos que isso também aconteceu no tempo do PS (e aconteceu sempre ao longo do tempo) e com percentagens de aumento porventura maiores do que as actuais. E se a câmara tem mais infra-estruturas e serviços para manter é óbvio que as despesas aumentam.

Também não deixa de ser demagógico o discurso das árvores destruídas e coisas do género. Ainda estou para saber qual era o projecto de rotunda do PS em Salreu e como é que esse projecto poupava as árvores? Ou como é que fazia o Parque do Antuã?

Mas além destas pequenas demagogias, quando olhamos para o programa eleitoral vemos uma coisa que gera alguma perplexidade, que é o anúncio de medidas que já estão em fase de implementação ou outras desfasadas da realidade ou mesmo inviáveis. Como o programa é vasto escolhi 6 áreas para demonstrar isso. É claro que esta análise não significa que também não existam propostas válidas. Elas existem obviamente, mas estão misturadas com outras coisas menos válidas. Espero que isto dê uma pequena ajuda para separar o mau do bom.

Educação

O prolongamento dos horários do 1º ciclo é algo em curso. O pugnar pela escola EBI no sul do concelho é uma consequência prática da carta educativa (que o PS nunca fez), a criação de cursos profissionais artísticos não compete à câmara, mas sim às escolas.

Criar uma rede de apoio à prática desportiva no 1º ciclo é o que a câmara actualmente faz com a escola municipal de desporto. Portanto, não se percebe que ideia é esta agora?

Saúde

O Centro de Saúde de Veiros já está protocolado, não é preciso prometer a sua construção, pois é algo que advém do protocolo.

Trânsito e Transportes

A ideia dos Minibus ecológicos servindo todas as freguesias é daquelas ideias muito mal estudadas. A ideia é completamente inviável no concelho por razões de custo (o executivo actual já fez um estudo sobre isso), no entanto, é prometida sem qualquer fundamentação séria.

Também não se percebe para que é o observatório municipal de trânsito e qual a sua utilidade prática?

Desenvolvimento económico

Apostar no Parque Industrial é uma coisa que qualquer um faz, mas foi uma coisa que o PS não conseguiu fazer em dois mandatos e ainda por cima enredou-se numa empreitada para a sua construção que não tinha qualquer sentido de realidade.

Captar incentivos para a modernização do comércio local já é feito há muito tempo em Estarreja.

Obras Públicas

Criar um Pavilhão Multiusos é uma ideia que o PS pode obviamente defender, mas neste caso tem que dizer claramente que não vai fazer uma nova piscina em Estarreja, pois não pode fazer as 2 coisas ao mesmo tempo. Calculo que não queira fazer mesmo isso, pois não consta do seu programa, mas acho que o devia dizer claramente e justificar porque razão um pavilhão multiusos é mais importante do que uma piscina?

Requalificar o Rio Antuã é uma ideia bonita, mas a câmara não tem jurisdição nessa área. Portanto, como é que vão fazer isso sem ter jurisdição sobre o rio?

Solucionar problemas de acessibilidades para pessoas com deficiência foi o que foi feito recentemente em Assembleia Municipal com a aprovação de uma programa de acção nesse sentido. Portanto, não se percebe para quê a repetição de uma coisa já aprovada?

Ambiente

Dizer que vão implementar um verdadeiro sistema de limpeza pública e higiene urbana no concelho só pode ser uma brincadeira, pois foi isso que o poder actual fez nos últimos 4 anos rompendo com o que era feito no passado. Ou seja, gostava de saber que solução milagrosa é essa que o PS agora descobriu?

A casa dos mortos

Em tempos quando alguém morria na aldeia fechavam-se as janelas de luto, arranjava-se o melhor compartimento da casa, vestia-se toda a gente de preto e convivia-se com o morto aqueles últimos momentos. O defunto ficava lá em casa. Dormia-se com ele ao nosso lado a lembrar-nos que a morte existe. A morte era normal e a vida continuava mesmo para aqueles que queriam morrer com o morto. Em pouco tempo recompunham-se do acidente e faziam por esquecer a tragédia.

Mas os tempos mudaram e a morte deixou de habitar as casas. Quisemos correr com ela para não nos lembrar os nossos limites. Quisemos correr com ela porque amanhã simplesmente não estaremos cá e isso causa-nos terror. Inventou-se então uma casa para a morte. Um sítio arrumado onde o morto fique sem nos lembrar muito que a morte existe. Um sítio que dê pouco nas vistas, arrumado da povoação.

As casas mortuárias tornaram-se assim nas casas da morte, embora com um nome mais suave. Como o agente funerário que dantes era o cangalheiro, mas que agora é apenas um empresário como outro qualquer, embora num negócio onde os clientes nunca acabam.

Cá na terra inauguram há poucos dias uma casa dessas. É uma obra que não dá votos, porque os utilizadores da mesma já não votam. Portanto, não se preocupem com isso. Mas é um obra que foi prioritária nos planos locais de governação. A sua inauguração deixou muita gente contente, principalmente aqueles para quem morte já não é uma coisa distante.

É que cada idade traz consigo uma preocupação. A do jovem é viver, mas a do velho é morrer com dignidade. E é por isso natural que se preocupe com a morte e que a olhe com respeito e proximidade. Mas o jovem não olha da mesma forma. Olha mesmo com distância para o velho que é um sinal da morte e do fim. Na velhice a morte é já normal. Na juventude é uma coisa distante e sem sentido.

Percebe-se por isso que os mais velhos se preocupem com a morte e com uma casa onde esta possa repousar. Percebe-se por isso que uma casa mortuária os deixe orgulhosos e com sentido de dever cumprido. Tudo é preciso. E a morte também merece uma casa.