No país dos doutores III

Um amigo meu enviou-me um mail dizendo que na questão do governo sueco, os meus números a respeito da percentagem de ministros licenciados podiam não estar correctos. Disse-lhe que os números publicados no outro post foram obtidos a partir de um artigo publicado na última Revista Sábado (pág. 60-61) da autoria de dois jornalistas daquela publicação e que eu até já tinha citado no programa da RVR (e que passa hoje de novo).

Não tinha razão para desconfiar que o artigo estava errado, mas fui investigar. Ora o governo sueco tem 22 ministros. Ora, 8 deles possuem estudos equivalentes a uma licenciatura ou superior, 6 são bacharéis e 8 não possuem qualquer grau académico do nível bacharelato ou superior. Ora fazendo as contas temos realmente 36% de ministros com grau equivalente a licenciatura ou superior. Portanto, o número publicado na revista está correcto.

No entanto, ao ler o artigo da revista com mais atenção reparei numa falha a propósito do ministro Ibrahim Baylan e dos 8 diplomados que a revista refere. Este ministro não é licenciado (ao contrário do que a revista diz), pois tem um certificado de estudos superiores em economia. Mas o seu trajecto não deixa de ser curioso para um ministro ligado à Educação. Não creio que fosse possível em Portugal alguém convidar para o governo uma pessoa com estas características. E aqui fica o exemplo de um ministro jovem que quando chegou à Suécia começou a vida como empregado de mesa.

No país dos doutores II

O José Pontes mandou-me um mail referindo que nas últimas autárquicas na Murtosa, alguns elementos do PS criticaram o facto de uma das candidatas do PSD não ser licenciada, o que na teoria deles seria desprestigiante para o concelho ter uma vereadora sem o título de Dr. ou Eng. Portanto, vejam ao ponto a que isto chega.
Já agora um outro aspecto interessante sobre o recrutamento dos nossos ministros ao longo dos anos e que já foi estudado cá em Portugal é que grande parte deles são docentes universitários. Ou seja, nunca tiveram qualquer contacto com a realidade mais comum. Outros foram sempre políticos. Ora este tipo de recrutamento difere daquilo que acontece na Suécia, onde temos ministros mais ligados à sociedade civil.

No país dos doutores

Já em tempos tinha aqui falado disto. Mas volto ao tema porque os dados dão que pensar. Todos os ministros do nosso governo são licenciados, oito possuem doutoramento, três fizeram mestrado e dois têm uma pós-graduação (José Sócrates incluído).

Quem olha para esta percentagem de ministros licenciados (100%) pode até pensar que é um sinal de desenvolvimento e de progresso. Mas a verdade é que é o contrário, pois quando olhamos para os países mais desenvolvidos da Europa vemos que estes têm nos seus governos percentagens bem inferiores de ministros licenciados. Na Suécia essa percentagem é de 36%, na França 59%; no Reino Unido 69%; na Itália 75%; na Alemanha 86%. Ou seja, todos os países desenvolvidos têm percentagens abaixo dos 90% chegando mesmo aos 36% no caso sueco.

Ora os países mais atrasados como Portugal e Grécia dão um grande valor à formação escolar e considerem isso um factor importante para governar, quando o mais importante na governação é ter uma boa capacidade de comunicação e execução, assim como competência para dirigir equipas que possam aconselhar na tomada de decisão.

Mas isto acontece no nosso país porque realmente vivemos num país de doutores em que os títulos académicos são sinal de estatuto social e de ascendência sobre os não literatos. Toda a sociedade promove esta ascensão e o próprio governo faz o mesmo.

Nas autarquias a cultura dominante é a mesma. Até se criou há tempos, o boato de que o vereador da cultura tinha saído da câmara porque o tratavam por doutor quando ele nem sequer era licenciado. Por acaso, até tem uma licenciatura em economia, mas mesmo que não tivesse, o ridículo do boato mostra bem o quanto estamos impregnados desta cultura de títulos académicos.

Esperemos que isto um dia muda para bem do país e de todos nós.