Viver feliz

A jornalista Laurinda Alves e Directora da revista XIS, esteve esta noite no Centro Universitário Fé e Cultura para debater o tema «Cinco ideias para ser feliz». Foi uma conversa agradável sobre temas como a proximidade, a intemporalidade, a verdade, a realidade e o compromisso. Conhecia mal a Laurinda Alves. Apenas da revista e dos livros e da televisão. Não sabia que era católica, que ia todos os dias à missa, que fazia retiros espirituais, que tinha 44 anos, que era tão alta. Mas como comunicadora revelou-se excelente e percebi que é na fé que tem aquele equilíbrio interior. Compreendo que o ter fé em algo é bom, pois dá-nos uma certa tranquilidade. Notei isso nela.

Quanto ao ser feliz realmente a nossa vida é feita de períodos felizes e infelizes. De períodos luminosos e mais sombrios. Mas é bom que nos períodos mais sombrios da nossa vida ou que nas crises de meia-idade a gente olhe para aqueles que têm doenças incuráveis, para aqueles que vivem paralisados, para aqueles que vivem na mais absoluta das misérias ou no mais absoluto sofrimento e nos lembremos da sorte que temos em não estar assim também. Da sorte que temos em viver razoavelmente bem em ter saúde, casa, emprego, família, o amor e cuidado dos outros, ou seja, tudo para ser feliz. E é nestes períodos mais sombrios que temos que encontrar forças para viver, que temos que encarar a realidade como ela é. É bom não ter uma doença, é bom não sentirmos dores no corpo, é bom ter o amor e o carinho dos outros, é bom ter que comer todos os dias ou uma casa que nos sirva de resguardo. É bom ter um emprego de que gostamos, ter pessoas que se preocupam connosco, ter uma família à nossa volta, poder encarar a vida com algum conforto e tranquilidade. Muitos não têm nada disto. E é nisso que se calhar devemos pensar quando estamos mais deprimidos, quando estamos mais em baixo. Que há quem viva com muito menos e muito pior e mesmo assim vive feliz.

É claro que isto é mais fácil de dizer do que de fazer. Bem o sei. Por vezes, devido a um pensamento estúpido ou uma ideia obtusa perdemos o equilíbrio. Por uma preocupação desnecessária por uma perda qualquer entramos em colapso. Mas não vale a pena. A vida está aí com toda a sua intensidade a acenar-nos. A dizer-nos para nos erguermos e voltarmos a ser o que éramos. A dizer-nos para voltarmos à nossa grandeza de ser humano. Voltarmos a ser felizes. Não sei se havia alguém triste na sala. Mas depois daquela conversa ficamos todos um pouco mais felizes.

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Orçamento

Aquilo que aconteceu em Valongo com o orçamento a ser chumbado em assembleia municipal pode obviamente acontecer em qualquer município onde a oposição seja maioritária na assembleia. Não sei quem tem razão, pois não conheço o assunto a fundo, mas imaginem que o mesmo acontecia em Estarreja. Já viram a trapalhada que era?

Quando estiveres cansado

Quando estiveres cansado de olhar uma flor, uma criança, uma pedra, quando estiveres cansado ou distraído de ouvir um pássaro a explicar o ser, quando te não intrigar o existirem coisas e numa noite de céu limpo nenhuma estrela te dirigir a palavra, quando estiveres farto de saberes que existes e não souberes que existes, quando não reparares que nunca reparaste no azul do mar, quando estiveres farto de querer saber o que nunca saberás, se nunca o amanhecer amanheceu em ti ou já não, se nunca amaste a luz e só o que ela ilumina, se nunca nasceste por ti e não apenas pelos que te fizeram nascer, se nunca soubeste que existias mas apenas o que exististe com esse existir, quando, se – porque temes então a morte, se já estás morto?
Vergílio Ferreira in Pensar.

Caro Vergílio. Obrigado pelo conselho, mas eu ainda não estou cansado.

Receita de ano novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade