De novo o Parque Industrial

A ligeireza com que falamos do que não sabemos é comum em muitas declarações políticas, em comunicados, em blogues, em jornais. Todos os partidos sofrem desse mal. O meu, os outros, enfim em todos nós existe esse vício de falar sem saber. Ora, quando leio o que escreve o Vladimiro Jorge no Efervescente sobre política local vejo muito disso. Processos de intenção, comentários sobre documentos que nunca leu ou acordos que nunca viu, tentativas de reescrever a história sem qualquer suporte documental.

Em suma, muita coisa fora da justa medida, do bom senso, ou da ponderação. É verdade que muita desta ligeireza não deixará memória, que morrerá na inconsequência. Sim, é verdade, mas também é verdade que muito disto está no discurso actual do PS local e aí é mais grave, pois estamos a falar de um partido político, não de um agitador blogosférico.

Vejamos de novo o caso do Parque Industrial. A glorificação do passado é impressionante. A admiração exagerada pelo próprio mérito é incrível. Mas um partido político responsável devia documentar-se antes de falar de coisas que conhece mal. O mesmo se aplica a pessoas que tiveram responsabilidades políticas no passado. Dizer de novo que foram oferecidos à Câmara Municipal de Estarreja terrenos para o Parque com uma área de 82 hectares, sem mostrar provas disso é obviamente pouco sensato. Ou falar disso sem os apontar no terreno ou sem saber onde eles estão na verdade é obviamente pouco sério.

A verdade é que nunca foram oferecidos terrenos à Câmara Municipal de Estarreja para a construção do Parque Industrial. A verdade apenas é que houve um acordo entre a Câmara de Estarreja e o Ministro Mira Amaral para a cedência de terrenos da Quimigal à Câmara. Mas nunca foram terrenos dados, como será revelado brevemente pela Câmara. E nem sequer estavam todos na área actual do Parque Industrial. Já o tinha o escrito no passado, mas parece que ninguém ligou ao assunto. Mas se o PS sabia da existência do dito acordo porque razão não o pediu à Câmara para se informar melhor? Porque razão falou como falou, sem qualquer documento, sem saber do que estava a falar? Porque razão falou sem nunca ter lido o acordo ou ter pedido informações sobre o processo? Lembro-me de ter feito a pergunta há tempos em Assembleia Municipal e da reposta ter sido que apenas sabiam o que lhe tinham dito. Nada mais. Mas não deviam ter investigado? Não deviam ter tido a preocupação de saber onde estão os terrenos? E em que condições estão?

Mas a fonte da informação também não sabe do que está a falar, o que é grave pois no caso de Vladimiro Silva era justamente Presidente de Câmara na altura. E é espantoso que passados tantos anos ainda repita os mesmos erros. Que ainda não tenha percebido que todos os terrenos do Parque Industrial foram comprados pela Câmara. Que nunca houve nenhum terreno dado. Eu sei que no tempo dele, o dossier do Parque Industrial estava nas mãos do vereador Teixeira da Silva e que Vladimiro Silva não acompanhava o assunto de perto, mostrando muitas vezes desconhecimento do processo, como continua a acontecer na actualidade. Mas bastava ter-se informado melhor. Bastava ter falado com os técnicos. Bastava ter olhado para os mapas para se perceber o que se passava. Bastava estudar os documentos antes de falar. Bastava ter falado com o vereador Teixeira da Silva, que curiosamente permanece no mais completo silêncio.

E falar agora de empresas tecnológicas de ponta no Parque, quando o nosso Parque Industrial (concebido no tempo do PS) nunca foi compatível com empresas de tecnologia de ponta ou ditas tecnológicas, que habitualmente precisam de lotes menores do que os planeados. Ou falar de novo no Ikea, quando os lotes planeados não são compatíveis com empresas de grande dimensão, como o caso do Ikea? Então mas quem é que planeou o Parque com lotes para empresas de média envergadura? Foi o PS ou foi o PSD? É que agora toda a gente fala no Ikea, mas em 1999, parece que ninguém pensava no Ikea? Ou nas empresas de alta tecnologia?

Não sou de glorificações. Nem do passado nem do presente. Acho que toda a gente pode cometer erros. Agora não vou tirar o mérito a quem o tem. Lá por ser de um partido político diferente acho que o mérito do Parque deve ser dado em parte a quem o idealizou. Não me custa nada dizê-lo, porque devemos ser justos com o passado. Como também devemos ser justos com o presente e com José Eduardo Matos que durante os seus mandatos comprou grande parte dos terrenos e cuidou da infra-estruturação para que o Parque fosse hoje uma realidade. É assim tão difícil dar uma palavra de reconhecimento pelo trabalho desenvolvido?

Aliás, acho que fez o que devia fazer, ou seja, concretizar um projecto, que embora não fosse seu, era fundamental para o futuro de Estarreja. É o que penso sobre isto. Sem demagogias, nem glorificações. Por isso, custa-me ver a glorificação do passado como se tudo tivesse sido bem feito. Custa-me ver a memória curta. Custa-me ver o aproveitamento político. A conveniência política para dizer que uns eram bons e os outros não prestam para nada. Como se isto fosse verdade? Como se isto fosse racional num discurso político? Ou mesmo aceitável? Como se as pessoas fossem cegas e não vissem nada?

E já agora uma última palavra em relação à fiscalização de todo este longo processo que tem sido o Parque Industrial. O PS de Estarreja pediu ao IGAT que analise todo o processo de gestão da obra e espero que a avaliação do IGAT seja rigorosa e incisiva em toda a história do Parque Industrial. Se houve ilegalidades devem obviamente ser assumidas e explicadas. Seja quem seja que as tenha cometido.

Fecho de SAPs

Hoje no Dário de Aveiro.

No decorrer da visita ao concelho de Albergaria, o deputado Afonso Candal, defendeu o fecho dos Serviços de Atendimento Permanente (SAP), em todo o país, devendo, em contrapartida, serem implementadas outras alternativas, «nomeadamente, o alargamento dos horários dos Centros de Saúde e as consultas prolongadas, para que as pessoas não tenham que ir de madrugada marcar vez. Muitas vezes não conseguem ser atendidas, porque os médicos são deslocados para o SAP».

O problema é que estamos longe de ter os Centros de Saúde com as consultas prolongadas e fechar SAPs quando não há alternativa é capaz de não ser boa ideia.

Líricas

O livro saiu há pouco tempo. Junta letras de canções, mas também uma curiosa colecção de recorte de jornais que dão uma certa graça à história de um homem que vive cada vez pior dos discos. Um dia é capaz de falir, mas para já vai andando.