Impostos

Poucas serão as câmaras que vão reduzir o IMI ou a usar a margem de manobra do IRS. E poucas são porque sabem tão bem como eu, que perder receitas em tempos de vacas magras não é boa política. Também sabem que as reduções pouco impacto terão na fixação de novos residentes, pois ninguém vai comprar casa a pensar no IMI ou na magra margem de manobra do IRS. Ainda por cima, estamos a falar de dois impostos que são revistos todos os anos. Daí que a sua redução num ano pode levar a um aumento no próximo e lá se vão os novos residentes embora. É claro que a dois anos das eleições autárquicas este tipo de reduções vão começar a ser frequentes e não me espanta nada que no próximo ano vejamos mais câmaras a fazer o mesmo para depois, no ano seguinte, voltar a aumentar. É claro que como contribuinte agrada-me sempre baixas nos impostos, mas como autarca não tenho ilusões quanto às razões de fundo e ao impacto reduzido das mesmas. Daí que a teoria que o Abel Cunha defende neste post parece-me um pouco inocente (ou rebuscada) e não resolve obviamente problema nenhum de fixação no nosso concelho. Nem no nosso, nem em lado nenhum.

A serra

Na serra tudo é demasiado grande e desmedido. Tudo está a mais. Sente-se uma inquietação perante a imponência de cada fraga, perante os vales talhados pelos glaciares, perante o granito duro e afiado. É uma paisagem impressionante que nos esmaga, que nos deixa reduzidos à insignificância. Por isso, gosto da serra e das forças esplêndidas que moldaram este mundo ao longo de milénios. Imagino-as a trabalhar, a desgastar o granito. Bem, mas lá vamos subindo até ao cume, até ao ponto mais alto, onde está a torre. Sempre olhando para trás vidrados pela beleza do local. A subida por Manteigas é impressionante. Uma antiga aluna minha explica as glaciações e as forças que moldaram aquele vale.

Lá no cimo visitamos o queijo da serra de cor amarela que desperta a gula, mas que não se pode comer para não quebrar a linha. Mas lá compramos pão para comer na viagem e em casa e depois do queijo e do pão descemos de novo para as terras baixas e vimos os rebanhos e os cães, que já só servem para guiar as cabras, pois o lobo já não existe por estes lados. E na descida pensei que ainda há 500 anos havia ursos por aqui e que tudo desapareceu. E pensei de novo no granito. Só ele permanece. Só ele resiste à passagem do tempo. E pensei no dia que acaba, pois aqui o tempo também passa, embora devagar.

Houve um tempo…

Houve um tempo de férias grandes, de banhos no rio, de visitas de pessoas que moravam fora da terra, de caminhadas nocturnas para as festas populares. De idas à Torreira para gozar a praia. Houve um tempo em que o mundo era mais simples com os maus de um lado e os bons do outro. Um tempo de pobreza e simplicidade. Um tempo sem computadores, nem Internet, nem TV por cabo. Mas esse tempo morreu. Hoje o tempo é outro embora o Verão seja o mesmo (será?).

Eu e a casa

E cá estou eu e a casa. A minha casa, a minha única casa. O meu pequeno mundo. A casa da aldeia, a casa que tenho evitado, que tenho trocado pela cidade. Fui recebido por umas teias de aranha (pouca coisa), mas lá ocupei o meu espaço e corri com elas com uma vassoura. E cá fiquei para lembrar tempos mais recentes. Ou mesmo tempos antigos depois da festa. Com o som lá ao fundo. Mas gostava de ter uma casa maior. Como aquelas que temos na aldeia para fugir da cidade. Aquelas com piscina lá fora, como uma aqui ao lado. Gostava, mas não tenho. Tenho apenas uma casa pequena habitada por aranhas e rodeada de ervas. É tudo o que tenho. E é melhor do que nada. E tenho também o silêncio da noite, que aqui se nota bem. Ou o ladrar pontual dos cães. Por vezes, tenho também a fábrica lá longe. Mas hoje está calada.

Ainda é Verão

Ainda é Verão. Ainda é tempo de férias, de festas populares, de praia, de noites quentes, de roupas brancas e transparentes, de dias sonolentos, de namorar ao luar. Ainda é tempo de descansar, de aproveitar os dias claros, de viver a luz. E hoje foi um dia desses. De festa na aldeia, de comer em casa dos parentes, de sentir o calor, de ver a procissão, de deixar o dia correr. Mas já estamos no fim. O Outono espreita na esquina e o Inverno vem logo atrás. E as festas vão acabando. E o santo já teve o seu dia e sua festa. E o povo a sua alegria.

Um fato…

Comprei um fato de treino. Acho que nunca tinha comprado nenhum. Ou se comprei já não me lembro. Um fato para correr. Sim, porque nunca corri muito, a não ser na infância distante e nos montes que rodeiam a aldeia. Mas nunca fui muito de exercício físico. Nem precisava agora que peso 65 kg. Não é para emagrecer. É apenas para treinar os músculos. Que estão fracos, preguiçosos, esquecidos da sua função. Talvez consiga lembrá-los da sua verdadeira missão. Talvez consiga ficar um pouco mais em forma. Talvez consiga ganhar alguma coisa com isso. É que a magreza também tem destas coisas. Ficamos fracos, pálidos, cedemos por qualquer coisa. E eu cedi pelos anos de computador. Pelas horas passadas frente ao ecrã. Pelas posições incorrectas. Pelo mal do nosso tempo. Mas não me basta correr. Os médicos também falam em piscina. Mas disso gosto menos. Só o trabalho em molhar o corpo cansa-me. Mas lá terá que ser. E será que voltarei a ser o que era?