Um país tão bonito

Este vídeo é qualquer coisa. É certo que a música é um pouco sinuosa e a cantora navega à vista. Mas cá fica.  

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Biografia II

Voltando ao livro de Puig, é claro que a tendência confessional do autor não invalida que estejamos perante uma grande biografia, que tenta reconstruir uma espécie de bilhete de identidade de Jesus Cristo partindo do princípio que as fontes conhecidas são várias e que podem de facto levar à reconstrução da figura de Jesus. Este pressuposto é obviamente contestável, pois embora as fontes sejam várias, muitas possuem adulterações e apresentam problemas historiográficos difíceis de resolver.

Por isso, quando Puig começa por abordar o nascimento de Jesus e tenta sustentar a hipótese do nascimento em Belém está ignorar que a questão é polémica, pois o nascimento em Belém pode ter sido inventado para cumprir uma antiga profecia, por Belém ser a cidade de David, de onde deveria nascer o Messias. É este tipo de armadilhas que Puig tem dificuldade em evitar e que torna a biografia demasiado confessional para o meu gosto. Há vários episódios como este do nascimento, onde Puig, além de apresentar o leque de hipóteses plausíveis, acaba por tomar partido a favor de uma hipótese habitualmente dentro da linha teológica oficial da Igreja. Ou seja, parece-me evidente que a carga confessional do autor o limita na sua análise.

E é pena, pois Puig faz um esforço notável para reconstruir a figura de Jesus, mas nem sempre leva em devida conta que as fontes conhecidas, principalmente as escrituras, estão cheias de manipulações e de contradições, o que torna difícil descortinar a verdadeira figura de Cristo.

Biografia

Quem foi realmente Jesus de Nazaré? É com base nesta pergunta que Armand Puig, director do Instituto de Ciências Religiosas de Tarragona, escreveu uma biografia sobre Cristo. Não é o primeiro a interrogar-se sobre a figura de Cristo, nem será concerteza o último. Também não faltam por aí livros a falar do assunto. Os livros confessionais são os mais abundantes. Apresentam uma imagem simplificada sobre Jesus e pouco se interrogam sobre a sua verdadeira história. Depois há também livros sensacionalistas cheios de teorias exóticas escritos muitas vezes por pessoas com pouca preparação. Mas há também livros mais sérios, que tentam dar conta das investigações históricas realizadas nas últimas décadas sobre as origens cristãs e sobre a própria figura de Cristo.

O livro de Puig é interessante e tenta incorporar a investigação histórica e mesmo a diversidade de interpretações e de teorias que existem sobre factos que rodeiam a vida de Jesus, mas é evidente em várias passagens que Puing, não permanece apenas no plano histórico e dá um cunho confessional à sua biografia. E é isto que me desagrada no livro. Voltarei ao tema em breve.

Coimbra

Do rio vê-se bem a colina com a universidade no topo. Parece o topo de uma cidade proibida. O topo do conhecimento. Cá em baixo o jardim junto à rua Emídio Navarro. É um arvoredo enorme que vai agora até ao Parque Verde. Nunca tinha andado no rio. Um rio de águas cinzentas em que desliza o barco. Passamos a ponte pedonal e depois a Ponte Europa e vamos um pouco rio acima. Depois damos a volta e voltamos ao mesmo sítio. Aos choupos, ao café Itália. E penso no rio. Na sua pequena nascente na Serra da Estrela. E penso também na cidade que já aqui está desde o tempo dos romanos. Tem crescido nos últimos tempos. Mas ainda é Coimbra da época pombalina. A cidade de Camões. A cidade da eterna saudade. Por isso, volto para que a saudade não seja pesada, não seja insuportável.

Contemporâneo de Salazar

Convivemos durante uns dias. Dezanove dias para ser mais preciso. Tinha assim pouco mais de duas semanas de idade, quando ele morreu na manhã do dia 27 de Julho. Um jornal inglês chamou-lhe “o ditador tranquilo” e de facto tinha um rosto tranquilo na hora da morte. Um rosto velho e acabado. Tinha 81 anos. Já não tinha aquele olhar de falcão debaixo dos óculos, com que pontuava os discursos. Já não era senão um espectro morto a quem já ninguém devia vassalagem. Mas com a sua morte é o fim de uma época. Moldou o regime de tal forma que o seu herdeiro político mais não fez do que dar continuidade ao que já vinha de trás. Mas como disse sou contemporâneo dele. Não é que seja para mim relevante, pois toda a ditadura é para mim dispensável. Mas acho graça pelo período histórico. Um período cada vez mais distante, cada vez mais dissolvido no tempo e na distância.