O problema do porco no espeto

Em resposta a este comentador nativo de Fermelã, não há dúvida que o Carnaval é uma festa. Vejamos: tem batuques, pandeiretas, tambores, álcool em quantidade apreciável (o hospital até esteve aberto para dar assistência) e até mulheres a desfilar nuas. Portanto, não conheço festa maior que esta. Ora parece-me que se fosse uma palhaçada tinha apenas palhaços a fazer umas brincadeiras, nada mais do que isso. E eu até gosto de festas, mas isto é um pouco como as sandes de porco no espeto. São saborosas, tem um excelente aspecto, pedem mesmo para serem comidas, só que fazem mal ao colesterol. E eu que tenho meu a 150 gosto de manter a linha…

Carnaval

Excelente reportagem fotográfica da Eli por terra de Carnaval. Já agora no domingo estiveram 15 mil pessoas em Estarreja (ou talvez 15 mil energúmenos na perspectiva de alguns comentadores locais) para ver o evento e a projecção mediática do Carnaval deste ano foi a maior de sempre. Não fiz parte dos energúmenos (desculpem nativos) que foram ver o evento, mas pelo que me contaram andavam todos felizes e contentes. É que o Carnaval é isso mesmo, uma festa, não uma sessão de literatura.

Manhã de Carnaval

Como no Brasil, a crise esquece-se por estes dias. E aproveita-se a luz morna do dia para ver a alegria e a folia. É certo que nada se aprende com  o Carnaval. É uma festa apenas nada mais do que isso. E é essencial perceber isso. Quem quer aprender alguma coisa fica em casa a ler um livro ou a caminhar pela luz da tarde, como eu…

As quatro estações

É tempo do Inverno partir. Por isso, o Carnaval é uma festa de passagem, de mudança para um novo ciclo. Por isso, gosto da festa como na canção de Bethânia.

 Ó primavera adorada
Inspiradora de amores
Ó primavera idolatrada
Sublime estação da flores
Brilha no céu
O astro rei com fulguração
Abrasando a Terra
Anunciando o verão

Outono,
Estação singela e pura
É a pujança da Natura
Dando frutos em profusão

Inverno,
Chuva, geada e garoa
Molhando a terra
Preciosa e tão boa
Desponta
A primavera triunfal
São as estações do ano
Num desfile magistral
Ó primavera
Matizada e viçosa,
Pontilhada de amores
Engalanada, majes…tosa
Desabrocham as flo…res
Nos campos, nos jardins e nos quintais
A primavera é a estação dos vegetais
Ó primavera adorada
Inspiradora de amores
Ó primavera idolatrada
Sublime estação da flores
Ó primavera adorada
Vens matizada de mil cores
Em verde e rosa vens banhada
Sublime estação das flores

Agadão

Hoje à tarde quando aportei em Agadão, no fundo daquele vale distante reinava um silêncio de moscardo como no poema de Eugénio. Um silêncio que alastrava de casa em casa, até à margem do rio. Nada se ouvia, a não ser a minha chegada, os meus passos, a alegria das crianças na escola. E na pequena escola pintada de branco falei da vida na Terra há 65 milhões de anos e dos restos que essa vida deixou. Mas ficou-me o poema na cabeça.

Entre pinheiros três casas.
Uma azenha parada.
Uma torre erguida de fraga em fraga contra o céu de cal.
E um silêncio talhado para o voo dum moscardo
alastra de casa em casa, sobe à torre abandonada
e sobre a azenha parada tomba desamparado.

Eugénio de Andrade