Não me vou sem dizer isto…

O que tinha a dizer já disse é a hora de passar ao silêncio definitivo. Mas não me vou sem dizer isto. Tive em tempos esta coisa onde escrevo agora pela última vez que me serviu para satisfazer o vício da escrita. Nunca tive grandes pretensões com esta escrita, a não ser fixar um certo momento do dia ou da noite, um certo pensamento, uma certa irritação, um qualquer estado de espírito, o esboço de alguma coisa que me chamou a atenção.

No entanto, aconteceu por aqui muita discussão política, muita dela inútil porque não levou a lado nenhum, nem influenciou coisa nenhuma. Muita conversa animada, mas nada que tivesse relevância no correr dos dias. Nunca me fez diferença, porque sempre soube que ia ser assim. Mas um dia cansei-me do bolodório e o corpo também começou a falhar-me. Deixou de querer escrever e eu tive que lhe fazer a vontade. E o corpo manda muito nestas coisas da escrita.

Passei depois muito tempo a recuperar esta velha carcaça e comecei a ocupar-me de outras escritas. A ter mais cuidadado com a falência do corpo. Daí que tudo isto perdeu sentido. Depois veio também o facebook, por onde estou agora quando me apetece e o corpo deixa. Portanto, já nada disto me apetece ou interessa. Tutto è fatto.

Em nome de quê? Para quê? Porquê?

Em nome de quê? Para quê? Porquê? São perguntas que fazemos quando chega a hora do fim. Quando chega a hora de acabar com isto. Começando pela primeira. Em nome de quê? Em meu nome concerteza. Para quê? Para nada, apenas para opinar, para dizer alguma coisa, mesmo quando não havia nada para dizer, apenas para chatear. Houve mesmo quem ficasse chateado, quem não gostasse disto ou daquilo. Até um processo em tribunal. Mas tudo passou. Já ninguém se lembra. Porquê? Por nada. Porque me apeteceu, porque podia escrever, porque tinha tempo, porque tinha saúde, porque não tinha nada de útil para fazer, porque queria fixar os dias e o percurso que realizei durante esse tempo. Deixar qualquer coisa para visitar no futuro quando entendesse. Deixar um pouco das milhentas situações em que fui em que pensei isto ou aquilo. Mas um dia deixei de poder e acabou-se. Por vezes, tenho saudades, mas passam depressa. Não tenciono voltar.