O velho problema dos anónimos

Há tempos, o Abel Cunha fechou a caixa de comentários do Notícias da Aldeia. Fartou-se dos insultos, da má educação, da falta de respeito, da pouca dignidade que muita gente tem na blogosfera a coberto do anonimato. Acho que fez bem, embora tenha pena. Porque as caixas de comentários existem não para destilar ódio contra este ou contra aquele, mas para trocar impressões sobre o que vamos escrevendo. É um problema antigo a que toda a gente se sujeita quando tem um blogue com comentários. Um dia perdemos a paciência e cortamos o mal pela raiz. Foi o que o Abel fez. Por um lado é pena, pois perde-se uma certa dinâmica com isso. Podia ter optado pela moderação dos comentários e sei que chegou mesmo a optar por isso. Muita gente faz isso. Estabelece um filtro e só publica o que interessa. Mas parece que não bastou.

Como já escrevi em tempos, o problema não está apenas no anonimato. Um comentador até pode ser anónimo, mas não optar constantemente pelo insulto ou pela má educação. Porém, a tentação é sempre grande quando não temos que prestar contas. Ou melhor dizendo quando não temos dignidade para assinar o que escrevemos. Porque a dignidade é essa qualidade que inspira respeito, que nos distingue do fraco, do devasso ou do trapaceiro. Podemos discordar, podemos criticar, podemos dizer mal, mas assinamos por baixo. Não nos escondemos atrás de um nome falso.

Por isso, sou contra ao tipo anónimo, que vem para a net mandar uns comentários, mas que na presença do visado não dizia nem um décimo do que diz. Por que há obviamente uma certa indignidade em falarmos mal e depois não assumir nada. Fugir como um rato. Dizer como desculpa que depois somos perseguidos. Mas é uma desculpa esfarrapada, porque o Estado Novo já acabou. Se fosse há 40 anos ainda se percebia. Aí algum autor mais atrevido estava sujeito a bater com os costados na prisão. Aí o anónimo até tinha alguma razão de ser. Agora, nós não estamos em 1968. Estamos em 2008. É claro que quando falamos abertamente podemos ter chatices. Alguém pode não gostar, alguém pode implicar connosco. Mas se temos medo de chatices então estamos calados. Agora servir-se de pequenos truques para falar sem ter chatices, não é de facto digno.

Em muita coisa, acho o Abel um exagerado, mas tem dignidade no que escreve. Podemos não gostar dele, podemos não concordar, podemos mesmo encontrar comentários poucos justos (e há vários), mas não se esconde atrás de um nome falso para dizer o que pensa ou sente.

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